Música Pura

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Música Pura




Música Pura
O instrumento de medição do tempo «Clepsidra» | Fonte:www.historiadigital.org
 
CLEPSIDRA
O universo criativo do compositor Carlos Caires distingue-se pela cuidada exploração de texturas sonoras ao longo do tempo. Quando em 1998 compôs Clepsidra, propôs-se refletir, precisamente, sobre essa dimensão temporal da Música, com base numa articulação de padrões rítmicos que evoluem em processos graduais e repetitivos. Explica-se, deste modo, o título da obra – referência a um dos aparelhos de medição do tempo mais antigos da História da Humanidade.


 
SINFONIA N.º 29 DE MOZART
Tratando-se de música clássica, é por vezes difícil saber «por onde começar». Pois não é descabida esta sugestão: a Sinfonia N.º 29 de Wolfgang Amadeus Mozart. É certo que as últimas três sinfonias do compositor austríaco são bastante mais virtuosas e fulgurantes. Porém, esta que escreveu aos dezoito anos de idade é particularmente convidativa. Sem arrebatamentos expressivos ou cerimónias em excesso, somos todos muito bem-vindos.


Joly Braga Santos | Fonte: Website da AvA Musical Editions
 
Nascido em 1924, Joly Braga Santos estudou com Luís de Freitas Branco, conviveu de perto com as principais figuras do panorama musical português de meados do século e era conhecido de toda a gente. Afinal, era alguém que não passava despercebido. Os inúmeros episódios que protagonizou com aparente despropósito são ainda hoje contados com humor e têm contribuído para a fama de génio despistado que lhe está associada. Mas o talento criativo sempre prevaleceu. Alheava-se frequentemente, mas era-lhe genuíno um deslumbramento de criança diante das coisas simples da vida. E entre as mais simples de todas estavam as melodias que brotavam fáceis da sua imaginação. O Concerto para Cordas em Ré Menor ilustra bem a importância da espontaneidade melódica na sua obra.


Felix Mendelssohn | Litografia de Lemoine, Auguste-Charles (1822-1869)| Fonte: BnF Gallica
 
Vinte e três anos separam as datas do primeiro e último concertos de Mendelssohn: o Concerto para Piano e Cordas (1822) e o célebre Concerto para Violino Op. 64 (1845). Pelo meio, conta-se cerca de uma dezena de obras concertantes entre as quais se destaca o piano; o que não espanta, em virtude de o próprio compositor ter sido um pianista com reputação internacional. Ainda na sua época, foram publicados os Concertos para Piano números 1 e 2 – em 1833 e 1838, respetivamente. As críticas póstumas têm mostrado preferência pela espontaneidade e exuberância do primeiro. Acontece que o segundo resultou de um processo criativo bastante mais laborioso. Tem, por isso, de ser apreciado de maneira diferente.
 
Johannes Brahms em 1876 | Fonte: Wikimedia Commons
 

MÚSICA PURA
 
A expressão «Música Pura», em si mesma, parece carregada de conotações dúbias. Sugere a existência de uma (outra) música menos casta, herege, ou remete para uma prática artística asséptica, desprovida de entusiasmo e emoções. Ou nada disto. Na segunda metade do século XIX servia para distinguir a ala estética mais conservadora, que incluía Brahms, do estilo progressista da Nova Escola Alemã liderada por Liszt e Wagner. Pura ou não, vale a pena respirar fundo e enfrentar a 1.ª Sinfonia daquele primeiro compositor. Como um verdadeiro exercício de liberdade, qualquer pretexto é bom para «contaminá-la» com os entendimentos da nossa escuta.
 
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    Brahms nunca escreveu uma ópera, ou sequer um poema sinfónico. Ao contrário do que acontece com tanto repertório da mesma época, a sua música não convida a que se estabeleçam associações a quaisquer narrativas, imaginários poéticos ou outras referências. Tudo emerge da própria substância musical, ou seja, melodias, harmonias, ritmos, dinâmicas de intensidade e tudo o mais que se grava numa partitura. No caso da Sinfonia em Dó Menor, estreada em novembro de 1876 em Karlsruhe, logo houve quem apontasse as semelhanças com conteúdos emblemáticos das sinfonias de Beethoven. Designadamente, o inconfundível motivo rítmico da Quinta Sinfonia que se vislumbra no coração do primeiro andamento, e a melodia que se destaca no último andamento, com carácter idêntico ao Hino à Alegria que se conhece da Nona. Como diria o próprio Brahms – aqui numa tradução branda – «qualquer um pode ver isso». Junta-se ainda outro exemplo deste tipo de apropriações. Antes dessa última melodia, as trompas entoam uma canção que o compositor terá ouvido de um pastor com as palavras «No alto da montanha, no fundo do vale, envio mil saudações!». Ora, estas evocações poderiam dar azo a outras mil divagações extramusicais. Porém, Brahms assume sem assombro a homenagem a Beethoven e outros motivos de inspiração, mas, acima de tudo, faz convergir todo o esforço criativo para a partitura, em si mesma. Resultou assim um monumento sinfónico imponente.

 

    Este monumento assenta em dois pilares de colossal dimensão: o primeiro e último andamentos. Ambos começam de rompante, com introduções solenes e suntuosas. Discorrem em estruturas formais que se identificam aproximadamente com a Forma Sonata, com as tradicionais secções Exposição/Desenvolvimento/ Reexposição, a que se acrescenta uma Coda. Apesar disso, a eventual previsibilidade dilui-se na abundância de motivos que se articulam com extraordinária desenvoltura e desviam o nosso interesse para aquilo que acontece em cada instante. Há elementos que se destacam. É o caso dos cromatismos ascendentes, que em vários momentos da sinfonia permitem criar tensão e alcançar situações de clímax. Também as elaborações contrapontísticas, quando duas ou mais linhas melódicas se sobrepõem e obtêm efeitos de grande beleza. Ainda, os momentos de obstinação rítmica que conduzem o discurso musical em largos momentos e os inúmeros solos instrumentais que sobressaem amiúde.

 

    Pelo meio, apresentam-se dois curtos andamentos, duas preciosidades que, aparentemente, terão sido escritas no verão anterior à estreia, o que contrasta grandemente com o período de gestação global, que se estendeu ao longo de mais de duas décadas. Numa primeira abordagem, poderão parecer dois interlúdios sem grandes pretensões, mas logo revelam bastante mais do que isso. Com caráteres distintos, ambos em forma tripartida, A-B-A, destacam-se as secções centrais. O segundo andamento, após uma primeira secção algo bucólica, desencanta um momento de arrebatamento expressivo com fraseios amplos nos agudos dos violinos. Já o insólito terceiro andamento, surpreende-nos por mais do que uma vez com harmonias e temas improváveis, aproximando-se por vezes da disjunção narrativa de Mahler. Pelo meio, insiste num motivo rítmico reminiscente do que se ouviu no primeiro andamento, mais uma derivação da célula germinal da Quinta de Beethoven.

 

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa
Maestro: Pedro Amaral

 

C. Caires Clepsidra
R. Strauss Metamorphosen, TrV 290
J. Brahms Sinfonia N.º 1, Op. 68

 

 
Imagem aérea da cidade de Berlim após o fim da Segunda Grande Guerra | Fonte: Wikimedia Commons
 
Richard Strauss compôs a obra Metamorfoses no final da Segunda Grande Guerra, quando a vitória dos Aliados era para todos evidente e tudo se desmoronava à sua volta. Assume, por isso, uma carga simbólica muito grande. Mas é também uma partitura muito peculiar, do ponto de vista técnico. Escrita para vinte e três partes independentes, desenrola-se na transformação progressiva das ideias. É uma densa polifonia em permanente mutação.

Franz Joseph Haydn | Gravura de Francesco Bartolozzi datada de 1791 | Fonte: BnF Gallica
 
Em 1961 fez-se uma descoberta extraordinária no Museu Nacional de Praga. Tratava-se da partitura manuscrita do primeiro Concerto para Violoncelo e Orquestra de Joseph Haydn, um obra que permanecera duzentos anos silenciada. Espalhou-se a notícia, e não tardaram as gravações dos mais prestigiados violoncelistas, tais como Jacqueline du Pré ou Mstislav Rostropovich, entre tantos outros. Hoje em dia, é uma obra que se impõe nas programações das salas de concertos de todo o mundo, sempre com a aparente naturalidade do primeiro dia em que foi tocada.

«Conde de Egmont» Gravura do século XVIII | Fonte: Wikimedia Commons
 
O desígnio da liberdade individual foi para Ludwig van Beethoven um pretexto criativo recorrente. Desde a ópera Fidelio à Nona Sinfonia, são muitos os exemplos que traduzem nas suas obras a apropriação de ideais de natureza social e política. É também o caso da Abertura Egmont, de 1810, que ilustra a capacidade que a Música tem de se transcender num alcance expressivo simultaneamente íntimo e universal.


BRAHMS E A SOMBRA DE UM GIGANTE 

Brahms compôs a 3.ª Sinfonia em apenas quatro meses, um período de tempo que se considera extraordinariamente curto, se comparado com os quinze anos que necessitou para completar a primeira, até 1876.