Concert Spirituel

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Musicália

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Concert Spirituel
Concerto Grosso Op. 6/8 de A. Corelli, Fatto per la Notte di Natale | Orquestra de Câmara Eslovaca | Youtube
 
Arcangelo Corelli foi um compositor que, no final do século XVII, contribuiu decisivamente para a emancipação da música puramente instrumental. O (então) novo género musical tinha origem em cerimónias religiosas opulentas, eventos públicos de grande aparato, momentos celebrativos privados ou reuniões que juntavam pessoas pertencentes às classes ilustradas. Compreende-se assim que, mesmo quando ostenta padrões rítmicos dançáveis ou harmonias pungentes, predomine na música de Corelli um dramatismo solene, por vezes exuberante, mas nunca tão excessivo que abale uma postura formal e representativa. É bom exemplo disso o caderno Op. 6 e, em particular, o concerto Fatto per la Notte di Natale.

Natureza Morta com Instrumentos (1623) | Pintura de Pieter Claesz (1597-1661) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Uma das características que melhor distingue o repertório musical barroco é o propósito funcional. Os compositores daquela época não buscavam reconhecimento póstumo, como veio a acontecer logo na segunda metade do século XVIII. Compunham para situações específicas em que se esperava da música uma intervenção precisa decorrente de uma necessidade. Como a criatividade artística tendia a romper convenções, impunha-se, ainda assim, enquadrar as novas composições em formatos reconhecíveis. Foi por essa razão que Telemann intitulou o livro de partituras publicado em 1733 como Tafelmusik (Música de Mesa).

Beethoven em 1801 | Pintura de Carl Traugott Riedel | Fonte: Wikimedia Commons
 
Ao escutar a Primeira Sinfonia de Beethoven logo ressaltam duas ambiguidades. Por um lado, distingue-se um respeito devoto pelas matrizes clássicas da sinfonia, mas «perturbadas» por rasgos criativos inusitados. Por outro, revela-se uma faceta da personalidade do compositor bastante mais comedida do que aquela que lhe é vulgarmente associada – impetuosa e excessiva. Estas dicotomias resultam de ser uma obra charneira que permite vislumbrar a essência da transição do período clássico para o período romântico. É também um gesto de afirmação por parte de um músico que estava consciente de estar a desflorar um novo capítulo da sua própria carreira.
 
 
 

  
Joseph Le Gros (1739-1893), Diretor da Concert Spirituel a partir de 1777 | desenho de Charles-Nicolas Cochin | Fonte: BnF Gallica
 
CONCERT SPIRITUEL
 
Na origem, a expressão «Concerto Espiritual» designava os concertos que eram dedicados à música sacra, mas que tinham lugar fora dos locais de culto. Porém, o tempo deu-lhe novos significados. Já no século XVIII, passou a ser o nome de uma instituição parisiense que promovia a realização de concertos públicos memoráveis, designadamente entre os anos de 1725 e 1790.
 
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    Desde meados do século XVII até perto do final do século XVIII, a Académie Royale de Musique dominou o panorama da música não-religiosa na capital francesa. Estava, todavia, obrigada a encerrar as portas durante várias semanas ao longo do ano, para respeito com as festividades mais importantes do calendário litúrgico. Atentos a esta «janela de oportunidade», vários músicos da Orquestra da Capela Real conseguiram obter a autorização para organizar durante esses períodos temporadas de concertos por subscrição pública, com lugar numa das salas do grandioso Palácio das Tulherias. Chamaram-lhe «Concertos Espirituais». O primeiro aconteceu em março de 1725 e incluia no programa o Concerto Grosso de Corelli Fatto per la Notte di Natale.

 

    A iniciativa, que sobreviveu oito meses à Tomada da Bastilha, evoluiu com o tempo. A predisposição devota permaneceu viva no repertório vocal, de que são exemplos os Stabat Mater de Pergolesi e de Haydn, mas tendeu a diluir-se por entre o repertório orquestral sinfónico de origem francesa e germânica. Em finais da década de 1730 já eram tocadas as suítes do livro Musique de table de Telemann. Na década de 1780, eram mais tocadas as sinfonias de Haydn do que de qualquer outro compositor. Entre elas, contavam-se as seis Sinfonias de Paris, que embora tivessem sido encomendadas para uma sociedade de concertos concorrente, a Concerts de la Loge Olympique, logo se tornou presença frequente nos programas da Concert Spirituel.

 

 

Concert Spirituel: Paris, 1725-1790

 

Orquestra Metropolitana de Lisboa

Violino e Direção Musical:  Ana Pereira

 

Sábado, 9 de dezembro de 2017, Museu Nacional de Arte Antiga

 

A. Corelli Concerto Grosso Op. 6, N.º 8, Fatto per la notte di Natale

G. P. Telemann Abertura (Suíte) em Mi Menor, Tafelmusik I, N.º 1, TWV 55:e1

J. Haydn Sinfonia N.º 84, Hob.1/84, In nomine Domini

 

 
      
Exposição no Louvre em 1787 | Desenho de Pietro Antonio Martini (1738-1797) | Fonte: Wikimedia Commons
 
Quando lembramos a importância de Joseph Haydn no seu tempo, logo vêm à ideia as célebres oratórias A Criação e As Estações, de 1798 e 1801. Também as célebres doze Sinfonias de Londres, escritas poucos anos antes. Já as Sinfonias de Paris são menos referidas. Cabe, porém, lembrar que o sucesso dessas seis sinfonias, datadas de meados da década de 1780, foi determinante para a internacionalização da carreira de um compositor que até então se mantivera discreto, ao serviço do Príncipe de Esterhásy. A Sinfonia N.º 84 é uma delas. Sendo a terceira, foi das últimas a serem compostas. Conhece-se pelo nome In nomine Domini porque o início se parece com uma melodia de cantochão, Em nome do Senhor.

 

Messias, de Händel, deve ser a mais famosa de todas as Oratórias. Datada de 1742, é música sacra que não se destina ao ritual religioso e que se assemelha a uma ópera em versão de concerto. Sem figurinos ou cenários, mas plena de teatralidade, na vez da previsível narrativa dramática em torno do nascimento, vida, morte e ressurreição de Cristo, surpreende-nos com uma meditação profunda em torno da sua figura. É nos nossos dias «O Concerto de Natal», por excelência. Todos lhe conhecem o célebre coro Aleluia.



Catedral de Salzburgo (foto recente) | Fonte: Pixabay
 
Para lá do Requiem, composto no final da vida, há várias outras obras sacras de Mozart que despertam o interesse dos ouvidos mais atentos, na sua maior parte compostas ainda em Salzburgo, na segunda metade da década de 1770. São os casos da Missa da Coroação, das Vesperae solennes de Confessore… e também da Missa Longa, KV 262, que se diz «Longa» por contraposição às missae breves, que omitiam partes da missa por se destinarem a cerimónias litúrgicas menos opulentas. Neste caso não é, todavia, a duração que se «alonga», mas sim o aparato vocal e instrumental utilizado – juntam-se um coro misto, quatro vozes solistas e uma orquestra reforçada com tímpanos, trompetes e trombones